Temporada 2016

A OCAM dá início à Temporada 2016

5 de abril de 2016

A OCAM tem realizado um percurso muito coerente ao longo de seus 20 anos de existência.

A premissa de que todos os seus musicistas devam realizar testes para reconquistar sua bolsa para a Temporada seguinte traz sucessivos upgrades. Ou seja, a cada ano a orquestra renova pelo menos 40% de seu quadro, necessitando encontrar a melhor sonoridade do presente grupo, que terá características necessariamente diferentes do ano anterior. Em 20 anos a OCAM trabalhou mais de 400 jovens instrumentistas. Essa é sua missão.

Mas penso algo além dessa missão. Tenho alimentado na OCAM uma vocação ampliada do fazer musical.

Explico: tento reinventar a OCAM a cada temporada. A programação deverá sempre trazer alguma surpresa do ponto de vista da substância cultural a ser vivenciada naquele momento. Estabeleço nosso roteiro baseado num paradigma que contenha oposições, que busque a transgressão de algum modo. Dessa forma, a tradição estará ladeada pelo experimentalismo, o histórico pelo contemporâneo, o clássico pelo popular, o exterior pelo Brasil. Nesse ano, estreitamos ainda mais a relação de parceria com o Instituto Tomie Ohtake. Vários programas tem suas gêneses em exposições programadas pelo Instituto, gerando assim alguma reflexão sobre a correspondência das artes, unindo públicos, ampliando a ação dos organismos culturais, etc.

É certo que compositores consagrados da história da música ocidental deverão sempre fazer parte da programação, até porque, sendo um organismo profissionalizante, a OCAM deve proporcionar o estudo do repertório histórico a seus bolsistas. A escolha de tais compositores/obras precisa agregar valor relevante dentro do perfil da programação. O desenho de programação de cada ano é parte da excelência a ser vivenciada pelos jovens da orquestra.

Existe um outro dado importante que vai além daquilo que se vê nos concertos. Refiro-me ao conteúdo dos ensaios, do dia a dia da OCAM.

A orquestra é um organismo que entrelaça os cursos de Instrumento, Regência, Canto e Composição do Departamento de Música da ECA/USP. Isso sublinha seu caráter pedagógico em busca de bons resultados artísticos. “Aprender a ouvir”, ou “desenvolver a escuta” talvez seja o bem mais valioso que se aprende na OCAM. A corresponsabilidade na execução musical camerística ou sinfônica passa a ser a principal meta a ser trabalhada pelo grupo. Ou seja, buscamos desenvolver a atitude e o engajamento entre nossos músicos.

Em resumo, isso significa que me proponho a jamais produzir “mais do mesmo”, afastando aquilo que signifique um fazer protocolar, como muitas vezes percebemos como linha ordinária em nosso campo de trabalho, ou mesmo como demanda dos meios de comunicação tradicionais.

Ao se reinventar a cada temporada, com 40% do grupo renovado, a OCAM precisa se conhecer, precisa saber quais as características desse novo grupo, saber qual será a proficiência de cada um de seus naipes. Dessa forma, tenho tido o hábito de programar obras sem solistas no primeiro programa do ano. Isso significa que a orquestra estará se auto conhecendo, entendendo suas possibilidades de equilíbrio, exercitando sua musicalidade em função das obras escolhidas.

A Sinfonia nº 5 de Franz Schubert tem como característica a transparência, a pureza de estilo, marcando a passagem do classicismo para o romantismo. Há destaques para todo o grupo de músicos no decorrer da partitura. É necessário domínio técnico preciso para que se consiga a leveza necessária em sua execução. O desenvolvimento fraseológico e os silêncios em Schubert são entendimentos essenciais à boa performance dessa obra. A Sinfonia nº 1 de Felix Mendelssohn é obra da adolescência do compositor. É quase épica, é imponente, brava em sua totalidade, desafiando, provocando a habilidade técnica e a resposta emotiva de cada um dos jovens músicos da OCAM. Tais obras permitem que o grupo se conheça, busque equilíbrios, que aprendam a respirar em conjunto, exercitem a construção do discurso em cada performance. As duas obras são de dificuldade mediana e permitem o arrojo técnico na execução.

Gil Jardim
Maestro e Diretor Artístico da OCAM

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